Caderno de Escritura

Café, livros e rock 'n' roll

Arquivo para setembro 2009

Daqui a 6 meses

com um comentário

Essa foi a resposta que recebi no Ministério do Interior. Mas não foi tão ruim, segundo eles daqui a seis meses eu vou retirar meu DNI. Ou seja, não fui deportado, preso ou pior. Só passei a manhã da quarta-feira inteira de pé, em várias filas.

E quando digo várias, não estou inventando. Cheguei às 07:30 mais ou menos e tinha uma fila que virava duas esquinas. Acabamos organizando um grupo do Mercosul: um brasileiro, dois paraguaios e um uruguaio. Às 8 horas as portas do ministério foram abertas e começamos a entrar. Aí me deram um número verde. Era para passar por uma triagem. Para ver se eu tinha trazido mesmo todos os documentos, as fotocópias, etc. Estava tudo certo, tinha levado até mais do que precisava.

Fui enviado para o subsolo e não havia nenhum instrumento de tortura, a não ser as próprias filas. O meu número na primeira fila interna era 115. Agora tinha passado para 164. Mas ninguém respeitava a numeração, nem os funcionários do ministério que apenas diziam “¿Quién sigue?” ao invés de chamar pelo número.

Com certeza, vários espertinhos foram mais rápidos nesse “quem é o próximo” e passaram na frente, até eu perceber o que estava acontecendo e junto com outros pedir para um segurança organizar a fila. Nessa segunda “fase”, uma garota passou meus dados para o computador e a única pergunta que fez foi se meus pais eram brasileiros.

Paguei uma taxa de 15 pesos e fui para a quarta e última fila. O que me parecia ser a mais tranquila, foi a que mais demorou. Chamavam pelo sobrenome e o meu nunca aparecia. Descobri depois que uma das atendentes pegava as fichas em bloco. Claro que ela pegou um punhado de fichas e a minha era a última. E é claro que era a atendente mais lerda dos 6 ou 7 que estavam ali.

Sem contar que o velhinho do Consulado argentino em São Paulo tirou todas minhas impressões digitais aqui, mas eles precisavam tirar tudo de novo. E lá fui eu tocar piano!

- Ah, e agora sai um DNI provisório, nem que seja um número?
- Não, não tem documento provisório. Daqui a 6 meses você volta para retirar o DNI.
- Seis meses?
- Isso, seis meses.

Não, não tem uma data específica. Inclusive no papel que ela me entregou está escrito à mão um nada específico “seis meses”. Ou seja, em tese eu devo ir no dia 9 de março de 2010 até a mesma 25 de Mayo para retirar minha cadernetinha.

Nem esquentei em perguntar se ficaria mais seis meses “ilegal”, sei que ela iria responder com boa ou má educação que era problema meu. Como vou para o Brasil agora no final de setembro, provavelmente vão me dar mais 3 meses de legalidade argentina. E se tudo der certo, vamos para Assunção no começo de 2010, aí tenho visto legal até março. O mais engraçado é que pedem para levar duas fotos, mas só usaram uma, a outra é para levar no momento em que retirar o documento. Ou seja, parece que vão preencher tudo na hora.

- O senhor trouxe a foto que precisava?
- Sim, está aqui.
- O senhor trouxe a cola?
- Ah, precisava?
- Sim, faça o favor de comprar na papelaria ali fora.
- Certo, aqui está.
- O senhor pode me emprestar sua caneta para preencher o DNI?
- …

Estou tirando um sarro, mas no Brasil foi muito pior (pelo menos nos anos 90): o documento a Stella demorou 2 anos e 4 meses para ficar pronto. Sendo que cada vez que ela ligava para a PF em Brasília, eles diziam que tinha sido enviado pelo correio. E demorou um ano para chegar!!! A vantagem é que ela tinha um documento provisório que permitiu abrir conta, tirar CPF e carteira de trabalho. Coisas que não preciso, então tudo bem.

Quando saí do ministério, lá pelas 13h30, fui direto encontrar-me com Ela no Tulasi, o restaurante de Indian Food que está virando aos poucos um dos meus preferidos. E à noite fomos no Mis Raíces, um dos poucos restaurantes judeus (de verdade) que existem por aqui. Os outros que já comi eram muito misturados, tanto com comida árabe como com comidas portenhas. Não, não dá para ir num restaurante judeu e encontrar no menu bife de chorizo e não se sentir enganado. Tudo bem que é carne kosher, mas isso não faz a menor diferença no gosto.

Também foi nossa primeira experiência com um restaurante “indoor”, que é a nova mania no mundo. A comida é ótima, eu até gostei do patê de fígado (que Ela detestou), mas sem dúvida o melhor é o Gefilte fish, peixe ao forno. Sensacional. Também adorei o esic fleish, que é uma carne com agridoce. O único problema é que era tanta comida, mas tanta (ainda mais porque tinha almoçado no Telasi) que me senti até mal. Acho que foi a primeira vez na vida que cheguei ao ponto de não aguentar colocar nem mais uma garfada na boca. Daqueles momentos em que é preciso abrir um botão da calça e caminhar um pouco.

E se fosse pela Juanita, a dona do restaurante, a gente ainda estaria comendo. A mulher ultra simpática é a dona e cozinheira. Na verdade, o restaurante é na casa dela. Saí de lá com a certeza de que precisava comer pratos judaicos com mais frequência, mas que precisava organizar melhor minhas saídas, para não ir a dois restaurantes de comidas pesadas no mesmo dia.

Na terça, dia anterior, tinha ido ao meio-dia até o Bárbaro, um café muito legal, em pleno micro-centro. Na terça e na quinta, caminhei bastante pela região, preparando uma nota sobre hotéis na Avenida de Mayo (que vou publicar daqui a pouco) e fiquei fascinado pelo Castelar Hotel, que fica na esquina com a 9 de Julio. O spa que existe no subsolo é muito legal. Gostei das fotos que tirei.

Na quinta, comecei meu curso de Redacción y Corrección. Gostei da professora e a turma é legal. Tem mais duas brasileiras que estão estudando na UBA e resolveram melhorar o espanhol escrito. Um grupo com três brasileiros deve ser meio raro por aqui. Mas demonstra um pouco a quantidade de gente que vem estudar aqui. Boas universidades, cidade barata e estudos gratuitos é uma mistura e tanto.

Como era a semana da burocracia, tive mais um contato com ela quando fui tentar fazer uma nota sobre o Museu Xul Solar. Você descobre os pequenos e grandes burocratas pelo olhar, pela expressão. Toda vez que você chega num lugar e precisa falar com um burocrata, ele sempre responde com esse olhar “putz, o cara vem me atrapalhar” e isso mesmo se a função dele é responder a suas perguntas.

Quando cheguei no museu, a recepcionista estava com essa cara. Pensei que ia dar merda e deu. Obviamente a mulher respondeu que eu precisava pedir autorização para a diretora, etc, etc. Isso porque fui honesto e contei tudo o que queria fazer antes. Podia não ter feito nada disso. Podia até ter tirado fotos sem flash escondidas. Vou ligar para a sra. diretora para pedir a santa autorização, etc e tal. Mas aproveitei o tempo livre e fui até a Clásica y Moderna, uma livraria/café que há tempos queria conhecer.

É um lugar legal, sem grandes atrativos estéticos, mas um centro de arte e cultura portenho. Com shows, exposições, boa comida e, claro, livros. Na tarde de ontem, tirei meu caderno rivadavia verde e escrevi mais dois capítulos de “Anatomía de un solo de batería” minha nova novela. Já vou pelo capítulo 16 (dos planejados 40).

Hoje foi dia de escrever as notas pro blog, ler jornal e tomar o café da tarde no Coleccionista, o único café notável que fica no meu bairro (e onde escrevi o 16º capítulo da novela). Estou ouvindo o novo CD do brasileiro Andre Matos que comprei em arquivos digitais da Azul Music, para quem gosta de bom heavy metal, eu recomendo. Ainda mais pelo custo de 9 reais para MP3s com boa qualidade.

Uahhhhh, que sono, acho que é isso. Agora vou colocar o post de hotéis no ar. Ah, a foto de abertura é minha, no Clásica y Moderna.

Escrito por Marcelo Barbão

14/09/2009 em 0:56

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DNI

com 9 comentários

Esta semana vai ser importante para mim: é meu turno para dar entrada no pedido de DNI de estrangeiro. DNI, para quem não sabe, é o Documento Nacional de Identificação (em castellhano: Documento Nacional de Identificación).

A burocra aqui não é nada fácil. Eu já tinha organizado todos meus documentos no consulado argentino em São Paulo, assim que tudo foi um pouco mais fácil. Isso não significa que foi mais rápido. Entrei com o pedido pela primeira vez em novembro do ano passado. Faltou uma coisa: a tradução da certidão de nascimento. Não adiantou argumentar que o pessoal do consulado disse explicitamente que nenhum documento precisava ser traduzido.

Lá fui eu pro Colégio de Traductores de Buenos Aires, traduzi o documento e voltei alguns dias depois. Segundo o rapaz estava tudo certo e marcou uma data para que eu voltasse, com todos os documentos, xerox de tudo, certificado de residência (tirado em qualquer delegacia de polícia), 2 fotos e 20 pesos.

“Que bom”, pensei, “bem fácil”. Mas quando vi a data, fiquei boquiaberto. Dia 9 de setembro de 2009. Na hora não vi a parte cabalistíca de um 09/09/09. Só fiquei louco de raiva ao ver que era quase um ano mais tarde! Lembrem-se eu estava em novembro de 2008.

Perguntei ao rapaz: E nesse meio tempo eu fico ilegal aqui? E ele me respondeu com um levantar de ombros que dizia: E que posso fazer? ou O que eu tenho a ver com isso? Explico que não estou ilegal, já que o consulado me deu um visto “permanente” temporário até outubro de 2009. Mas não posso abrir conta ou alugar algo em meu nome ou ter nota fiscal, nem ter um emprego. Não que quisesse fazer algo disso.

Bom, esse quase um ano passou e agora vou lá, quarta-feira. Só falta tirar as fotos, tarefa que cumprirei amanhã de manhã. As fotos para DNI são bem estranhas. Nada de 3×4, são maiores, acho que 4×4 e o rosto precisa estar virado uns 45º para o lado direito. Wish me luck, all of you.

Depois de pegar o “jeito” do Robin Cook, a tradução está indo muito bem e tranquila. Estou trabalhando um pouco mais do que o normal, (faço algumas páginas durante o fim de semana e tento esticar ao máximo as manhãs) para poder trabalhar pouco ou nada durante a viagem para São Paulo. Como disse, o livro é bem tranquilo.

N quarta fui para San Telmo tirar fotos da estátua da Mafalda que está em Chile e Defensa, em frente ao prédio em que morou Quino (que hoje vive em Milão). Acabei almoçando num restaurante bem mais ou menos na rua Estados Unidos. A comida não era ruim, mas o atendimento bem lento. E eu tinha aula de Gramática, assim que foi meio estressante. Ontem, por outro lado, voltei ao bairro e almoçamos, junto com dois amigos brasileiros da Stella, no velho e bom Don Ernesto. A comida está muito boa 90% das vezes e o atendimento é sempre excelente.

Depois, passeio por Defensa (eu até gosto mais de ir de sábado, já que os domingos são terríveis), sorvete no Freddo e café no La Poesía (cada vez mais meu café preferido). À noite, casa do cunhado para ver o jogo. Eu gosto muito da seleção argentina, mas falta um cara para armar jogadas ali. Gostem ou não, queiram ou não, o Riquelme faz muita falta nesse time.

Minha novela avança firme e forte: na sexta, depois da aula de inglês (contei que voltei a estudar inglês num curso especial sobre gramática?) sentei no Café de los Angelitos e escrevi mais dois capítulos da saga baterística.

Voltei à Eterna Cadência na terça-feira para ver uma palestra sobre livros de ficção científica. Não sou fã do gênero, mas gosto de alguns paradigmas (como o das viagens no tempo) que são bem comuns nesses livros. O cara que fez a “charla” é bem legal. Entende dessas questões porque é físico. E eu fui caminhando os cinco qiuilômetros que me separam da livraria.

Na quarta, jantamos com Martín Kohan na “parrilla” preferida dele. Parece que seu novo livro será publicado em março, mas não me lembro (ou acho que ele não falou) por qual editora. É uma história autobiográfica, mas romanceada, sobre uns problemas que teve com inquilinos em um apartamento que estava alugado (mas que é onde ele mora hoje).

De resto, passei a semana começando a organizar minha viagem para o Brasil que, se tudo der certo, acontecerá entre 25 de setembro e 8 de outubro, e incluirá o aniversário da minha mãe, uma viagem de 2 dias para o Rio (rever amigos e conversar com alguns editores), uma visita a minha tia-avó que está doente em Amparo (interior de São Paulo), além de encontrar todos os amigos e visitar editores paulistas. Uma correria, mas acho que vai dar certo.

Fora que quero renovar a carteira de motorista nesse meio tempo. Como os preços aqui estão baratos e há lugares bem legais na província de Buenos Aires, queremos tirar uns fins de semana, alugar um carro e partir por essas estradas perigosas da Argentina – Workin’ Them Angels. Com outro casal, ainda ficaria mais barato. Estou com vontade de voltar a dirigir, faz muito tempo que pego a estrada (dirigindo, pelo menos). Acho que uns dois anos.

Também meio que já organizei coisas para fazer na volta. É que um de meus cursos termina e estou querendo aproveitar o tempo. Duas coisas que vou fazer quando voltar do Brasil: finalmente começar minhas aulas de harmônica e fazer o curso de culinária indiana, duas coisas que venho adiando.

Sem falar que no ano que vem será minha dedicação ao trekking, mas aí já é outra história. Agora chega que a semana vai ser pesada. Enfrentar a burocracia, ver dois lançamentos de livros, um jantar num restaurante verdadeiramente judeu, inauguração de exposição fotográfica e ainda vou enfrentar uma peña, festa folclórica típica do interior argentino.

Escrito por Marcelo Barbão

07/09/2009 em 0:59

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