Arquivo para março 2011
A Mulher em PDF
Esqueci de avisar ontem que A Mulher Sem Palavras já está a venda na Saraiva e na Gato Sabido como e-book. Não é no formato Epub, o melhor, mas em PDF. A um preço muito honesto.
Os links são esses: Saraiva (http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/3369952/a-mulher-sem-palavras/?ID=BE1348867DB031509182B0844) e Gato Sabido (http://www.gatosabido.com.br/ebook-download/149470/a_mulher_sem_palavras.html)
O boom antes do boom
Em 1966, o escritor, crítico e ensaísta chileno Luis Harss escreveu um livro, primeiro em inglês, chamado Los Nuestros (Into the Mainstream) onde publicava entrevistas com escritores que formariam a base do chamado Boom Latino-Americano.
Cortázar, García Márquez, Juan Rulfo, Carlos Fuentes, Vargas Llosa e até João Guimarães Rosa. Bom, depois de anos esgotado, a revista Ñ começou a publicá-lo em 9 fascículos. São sensacionais. Já saiu Cortázar e García Márquez, no próximo sábado sairá Rulfo.
Não seria legal algo assim no Brasil? Talvez seja apenas impressionismo meu, mas acho que pela primeira vez a literatura brasileira tem a chance de ganhar um espaço maior no cenário mundial. Pode ser através do crescimento do país, da diminuição relativa da pobreza e coisas assim.
Tanto pode ser uma viagem minha, afinal estou de fora, vendo as coisas um pouco de longe. Claro que falta interesse entre uma parte dos editores e também uma parte da crítica e do jornalismo.
Contagem para comparação (essa semana fui tonto e esqueci de comprar o suplemento cultural do La Nación): revista Ñ e Radar Libros
total de resenhas: 11
livros argentinos: 6 (+ 2 de portugueses)
livros de autores iniciantes: 0
Literatura Argentina e Edição
A partir de amanhã a vida fica ainda mais corrida do que já é hoje. Começam as aulas na UBA (Universidade de Buenos Aires) e eu me “inscrevi” em duas matérias. O inscrevi está entre aspas, porque na verdade vou ser aluno ouvinte pois não tenho muita vontade de ficar fazendo provas e só quero estudar as matérias que me interessam.
Por exemplo, no curso de Letras, não vou nem passar perto de Gramática, Sintaxe e Linguística. Só quero fazer Literatura mesmo. Já o curso de Edição é mais atrativo e de repente, se gosto, até posso tentar fazer completo. Por enquanto, sou um “oyente”.
As matérias então são: Literatura Argentina e Introdução à Atividade EleitoralEditorial. Depois das primeiras aulas, dou minha opinião sobre isso.
Moça em chapéu de palha

Menalton Braff
Menalton Braff sempre me surpreende. Depois de ter lido há pouco tempo o excelente A Muralha de Adriano, com sua narrativa mais tradicional e linear, ele nos desconcerta (no bom sentido) com essa Moça.
Eu me interessei pelo título, mas não consegui entender a conexão entre o chapéu de palha e a pintura antes de me embrenhar pela leitura. No livro, Menalton conta a história de Bruno, um jornalista aparentemente de uma cidade pequena que descobre falcatruas de um grande empresário.
O problema é que esse sujeito é um grande amigo do dono do jornal que o impede de publicar suas descobertas (que nunca são reveladas no correr da trama). A partir do choque com o editor do jornal, o livro vai se desenvolvendo a partir da memória fragmentada e muitas vezes repetitivas do jornalista.
Como acabou publicando a matéria de todas as formas (mesmo não ficando claro onde e como), ele precisa se esconder pois gente poderosa o procura e passa os dias num sítio com sua namorada – a pintora que usa chapéus de palha – enquanto escreve um romance (sugestão da namorada) sobre todo o caso de corrupção. Mas o livro que Bruno escreve vai se afastando da narrativa jornalística e ganha toques de ficção. O que causa estranheza em sua namorada.
Aos poucos o livro vai ganhando um toque metalinguístico já que a história que Bruno conta vai se transformando no livro que Menalton está escrevendo (ou vice-versa), com os toques impressionistas que se espalham por todo o texto e fazem a conexão com o título. Eu que havia me encantado com o primeiro livro que li do Braff, o Que Enchente me Carrega?, agora tenho outro na lista dos melhores.
Para mim, Menalton é um dos melhores escritores brasileiros da atualidade. E ele não para, já lançou mais um que felizmente deverá chegar às minhas mão em abril.
Se eu fechar os olhos agora

Como tinha prometido, li também o “rival” do Chico Buarque no Jabuti 2010. Posso dizer que quando morava no Brasil, sempre gostava das entrevistas que ele fazia com escritores. Bom, o livro todo mundo já deve saber que trata da histórias de dois meninos – Eduardo e Paulo – que, no começo dos anos 60, numa cidade pequena encontram um cadáver.
Vão nadar no lago, depois de serem suspensos da escola e se deparam com um cadáver de uma mulher seminua e com um seio extirpado. A partir desse evento, os dois amigos, ajudados por um velho ex-comunista jogador de xadrez que está internado na casa de repouso local começam a desvendar o mistério que envolve os ricos e poderosos da cidadezinha.
O que parece ser uma história comum (e é mesmo) consegue ganhar clima com a boa narrativa de Silvestre. Em termos de diálogos e descrições, ele mostra que realmente sabe o que está fazendo. Na minha opinião, os diálogos, quando se mostram truncados, esfacelados, emulando os ouvidos surdos de quem quer saber a verdade, são o ponto alto do livro. Estão tão bem escritos que me levavam à raiva (contra o personagem que não responde, não contra o autor).
Os gêneros se misturam, entre policial, histórico e pitadas de histórias juvenis, sendo que não existem momentos lentos ou arrastados. Quer dizer até o fim. E imagino que os romances como o Se eu fechar… possuem esse problema. É complicado terminar uma história assim sem que pareça estar criando um “final com moral”. Na minha opinião, Silvestre cai um pouco na armadilha, pois o final cai num certo sentimentalismo que ele tinha conseguido evitar em todo o livro e realmente a última parte fica aquém do resto da narrativa.
Não que eu deixe de recomendar o livro por causa desse “defeito”. Se eu fechar os olhos agora é um excelente romance e Edney Silvestre entrou no mundo literário com o pé direito. Com ou sem polêmica.
Radar Libros
O Radar Libros deste domingo traz uma resenha do primeiro livro da minha amiga Paloma Vidal que é argentina, mas saiu daqui aos dois anos e foi parar no Brasil. Ela já publicou 3 livros em português e é a primeira vez que publica em espanhol. E o mais interessante é que foi ela mesma que traduziu os contos de Más al Sur ao espanhol.
Um pouco do que eu mesmo estou fazendo. A nota completa está aqui: http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/libros/10-4192-2011-03-06.html
Polêmica
Uma polêmica se instalou nos últimos dias aqui na Argentina: a presença de Vargas Llosa na abertura da Feira do Livro deste ano. Seria até uma escolha lógica do ponto de vista comercial (a Feira do Livro é organizada por uma fundação privada, sem envolvimento estatal): o cara acabou de ganhar o Prêmio Nobel, lançou um novo romance, etc, etc.
Bom, mas todos sabem que o Vargas Llosa é um liberalóide com ideias de direita, ao velho estilão FMI – isso em termos econômicos, claro. Não teria problemas se ele não se metesse a conhecer o mundo e a América Latina repetindo noções bastante clichês do velho liberalismo. Mesmo tendo de cair em contradições como quando foi ao Brasil no ano passado e teve de reconhecer as mudanças no Brasil – sendo que a maioria aconteceu indo contra as receitas (neo)liberais que ele tanto defende. Resumindo, em termos políticos e econômicos, Vargas Llosa e eu quase sempre estaremos em lados contrários.
Mas tudo isso não me afetaria no mais mínimo. Era muito provável (e continua sendo) que eu não fosse à abertura da Feira (já vi o Vargas Llosa uma vez em São Paulo, no CCBB, e ele não me impressionou), faz tempo que já li Conversa na Catedral e fiquei encantado, mas nenhum outro livro dele chegou as pés. Não comprei o último e nem está nos meus planos.
Mas o que aconteceu? O Diretor da Biblioteca Nacional mandou uma carta aos diretores da Feira do Livro pedindo que Vargas Llosa não fosse o escritor a abrir a Feira. Por suas posturas frente ao governo Kirchner e com algumas tintas nacionalistas que me pareceram equivocadas como “melhor chamar um escritor argentino”. A que levou isso? A dar munição a ao próprio Vargas Llosa, Clarín e outros baluartes da direita argentina, que começaram a falar em “censura”.
Sendo que nunca foi uma política do governo de Cristina Kirchner (ela até saiu desautorizando a postura do diretor da Biblioteca) proibir a vinda de Vargas Llosa. Este, numa entrevista na CNN, até falou que só tinha sido censurado na Argentina durante a ditadura – deixando a entender que estava sendo agora e que CFK = ditadura. Foi uma atitude lamentável dos dois lados.
Pode ser que o diretor da Biblioteca não achou que sua carta chegaria a desatar uma discussão que levaria pessoas a comparar o governo com a ditadura, mas também não dá para ser tão ingênuo assim. Nem usar argumentos tão fracos e até xenófobos para justificar sua posição. No final, Vargas Llosa virá e municiado com sua lenga-lenga neoliberal.
A volta da temporada
Felizmente chega março e volta a temporada de eventos literários na cidade. Sim, é bom ter o verão para poder ler os vários livros comprados e ganhados durante o ano, mas o contato com ideias e escritores também é muito bom. E comecei 2011 em grande estilo. Ontem, dia 4, fomos à Eterna Cadencia para ver o lançamento do livro Soy un Bravo Piloto de la Nueva China, do jornalista Ernesto Semán. Só o conheço pelas suas reportagens no Pagina 12 (é o correspondente deles nos EUA), mas a apresentação de ontem foi feita por Ricardo Piglia. O que dá um pouco o tom do debate.
Cheguei tarde e a EC estava lotada, por isso só pude ouvir a conversa. Aproveitei para comprar, além do livro que estava sendo lançado, o Blanco Nocturno, último do próprio Piglia (cuja tradução é Alvo Noturno, não Branco Noturno, como vi em alguns textos brasileiros) e um romance inédito de Silvina Ocampo, uma das melhores escritoras subvalorizadas da Argentina.
Era esposa de Bioy Casares, muito amiga de Borges e irmã de Victoria Ocampo, o que dá uma noção de seu problema em ser reconhecida. Mas é uma contista e poeta incrível. Agora quero avaliar seus romances. Depois da EC fomos a um restaurante ali perto chamado Dominga, onde jantamos com Martín Kohan.
