Polêmica
Uma polêmica se instalou nos últimos dias aqui na Argentina: a presença de Vargas Llosa na abertura da Feira do Livro deste ano. Seria até uma escolha lógica do ponto de vista comercial (a Feira do Livro é organizada por uma fundação privada, sem envolvimento estatal): o cara acabou de ganhar o Prêmio Nobel, lançou um novo romance, etc, etc.
Bom, mas todos sabem que o Vargas Llosa é um liberalóide com ideias de direita, ao velho estilão FMI – isso em termos econômicos, claro. Não teria problemas se ele não se metesse a conhecer o mundo e a América Latina repetindo noções bastante clichês do velho liberalismo. Mesmo tendo de cair em contradições como quando foi ao Brasil no ano passado e teve de reconhecer as mudanças no Brasil – sendo que a maioria aconteceu indo contra as receitas (neo)liberais que ele tanto defende. Resumindo, em termos políticos e econômicos, Vargas Llosa e eu quase sempre estaremos em lados contrários.
Mas tudo isso não me afetaria no mais mínimo. Era muito provável (e continua sendo) que eu não fosse à abertura da Feira (já vi o Vargas Llosa uma vez em São Paulo, no CCBB, e ele não me impressionou), faz tempo que já li Conversa na Catedral e fiquei encantado, mas nenhum outro livro dele chegou as pés. Não comprei o último e nem está nos meus planos.
Mas o que aconteceu? O Diretor da Biblioteca Nacional mandou uma carta aos diretores da Feira do Livro pedindo que Vargas Llosa não fosse o escritor a abrir a Feira. Por suas posturas frente ao governo Kirchner e com algumas tintas nacionalistas que me pareceram equivocadas como “melhor chamar um escritor argentino”. A que levou isso? A dar munição a ao próprio Vargas Llosa, Clarín e outros baluartes da direita argentina, que começaram a falar em “censura”.
Sendo que nunca foi uma política do governo de Cristina Kirchner (ela até saiu desautorizando a postura do diretor da Biblioteca) proibir a vinda de Vargas Llosa. Este, numa entrevista na CNN, até falou que só tinha sido censurado na Argentina durante a ditadura – deixando a entender que estava sendo agora e que CFK = ditadura. Foi uma atitude lamentável dos dois lados.
Pode ser que o diretor da Biblioteca não achou que sua carta chegaria a desatar uma discussão que levaria pessoas a comparar o governo com a ditadura, mas também não dá para ser tão ingênuo assim. Nem usar argumentos tão fracos e até xenófobos para justificar sua posição. No final, Vargas Llosa virá e municiado com sua lenga-lenga neoliberal.
