Escrituras e revistas
Não só estou escrevendo muito, mas também estou reescrevendo muito. É que estou preparando – e a intenção é ter pronto ainda em 2011 – um livro em espanhol, ou castellano como dizem os argentinos. Com a ajuda de amigos, estou ali batalhando para que meu espanhol seja aceitável.
Como não é uma tarefa assim tão fácil escrever em outra língua (nem na própria, mas é um pouco menos difícil), decidi tentar iniciar a carreira paralela com relatos (aqui falam mais relatos que contos, não sei por que, mas os dois podem ser usados). Acho que mais um ou dois meses termino a primeira versão.
O mais importante em termos de projetos, no entanto, foi o lançamento da Outros Ares, revista online de contos, voltada principalmente para novos escritores. No começo, ela iria publicar somente escritores inéditos, mas recebemos espontaneamente contos de escritores já conhecidos e publicados. E, bom, seria meio estúpido não publicá-los também. Mas vamos pensar numa forma de separar em seções para não ficar estranho.
Bom, para quem não viu a revista, o link é este: outrosares.wordpress.com
Por aqui continua a Feira do Livro, mas preciso dizer que dei zero bola para ela. Excesso de trabalho e necessidade de adiantar muita coisa porque vou para o Brasil no dia 21 e há muitos livros a serem traduzidos, além dos lidos, resenhados, etc.
Além de escrever para o Cronópios e o Amálgama, também fui convidado para participar do Musa Rara, a nova empreitada do Edson Cruz (que foi um dos fundadores do Cronópios), mas este ainda não entrou no ar. Avisarei.
Claro que o problema de publicar um livro aqui na Argentina é a necessidade de fazer divulgação em espanhol também. Se não dou conta de fazer um bom trabalho em português, o que dirá por aqui? Parece mais fácil porque, pelo menos, eu estou fisicamente aqui? Não acho, contando minha famosa timidez na hora de me autopromover (tive de beber algumas no lançamento da Mercearia e no final estava meio pra lá do Himalaia).
A boa notícia é que meu velho livro sobre bateria, parado por um bloqueio de escritor, voltou a deslanchar. Acho que agora encontrei a forma como desenvolvê-lo. Aos poucos vamos avançando.
Claro que o assunto literário principal aqui na Argentina foi a morte de Ernesto Sábato. Mas li sua obra há tanto tempo (O Túnel e Sobre Heróis e Tumbas, nada mais) que qualquer coisa que escrevesse aqui seria uma cozinhada de tudo que saiu por aí, assim que prefiro me abster.
As leituras seguem, apesar do tempo corridíssimo: Poeira: demônios e maldições do Nelson de Oliveira e Placebo de José Brindisi. Além disso, estou me aprofundando nas leituras mais técnicas sobre o processo de Edição, preparando-me para começar o curso, espero que no segundo semestre.
Em algum momento ainda em maio pretendo colocar no ar um blog em espanhol, onde vou publicar resenhas de livros brasileiros, fazendo a ponte entre os dois países – algo que acho tremendamente necessário. Tudo isso se conseguir ficar vivo, claro.
Estreia no Amálgama com Pájaros en la Boca
Mesmo reclamando da vida, ainda tenho tempo para ler e criticar. Agora além do Cronópios (onde sou um fantasma de crítico, já que estou há mais de um ano sem publicar nada), agora escrevo no Amálgama:
http://www.amalgama.blog.br/
, um projeto interessante do Daniel Lopes.
Minha primeira participação é com uma resenha sobre a contista Samanta Schweblin que publicou o livro Pájaros en la Boca em 2009. Atrasado, mas é porque vale a pena. Ela pode ser considerada uma das melhores contistas atuais aqui da Argentina. O link para a resenha está aqui:
http://www.amalgama.blog.br/04/2011/passaros-na-boca/
Não é fácil ser o Barbão
Tento manter o blog atualizado, mas não é fácil. A vida não tem ajudado muito. É ótimo ser considerado um bom tradutor e procurado por editoras, inclusive algumas novas. Mas isso significa que estou sempre trabalhando. Se não traduzo, escrevo, se não escrevo, leio.
O ano está cheio de altos e baixos. Primeiro, o prédio recebe uma fiscalização da companhia de gás, que acusa irregularidades em muitos apartamentos, inclusive no meu. A culpa não é minha, é do dono que fez umas reformas ilegais, mas quem fica 40 dias sem gás sou eu. Tomando banho frio (por sorte foi no verão) e comendo fora.
Aí veio uma coisa boa: 10 dias viajando por Córdoba. Que ótimo. Volto e cheio de traduções, também ótimo.
Aí a paulada que nunca esperava: meu gato começa a ter problemas no rim, precisa de uma soroterapia, começa a piorar, respira mal, descobrimos que tem um problema sério no coração, num momento já não consegue respirar sozinho e morre no dia 28 de março. Ele estava com a gente desde que nos casamos, assim que nessa casa sempre fomos 3. Não o deixei para trás nem quando me mudei para Buenos Aires. Ainda não me recuperei.
Termino um novo livro e começo a via Sacra de tentar publicá-lo, escrevendo para editores, entrando em discussões sobre o que vende, como se vende, por que se vende. E são coisas que me parecem cansativas, que se repetem desde que eu comecei a me envolver diretamente com o mercado editorial em 2001.
E quando tudo de ruim parecia ter acontecido, quando minha irmã chega para me visitar e eu a levo para passear, junto com os amigos que a acompanham, um “trombadão” rouba a bolsa da amiga em plena 9 de Julio, bem ao meu lado. Tão rápido que nem deu tempo de pensar.
Você pode pensar, “tudo bem, isso acontece”. Certo, claro. Hoje, estamos trabalhando aqui e o notebook Dela começa a fazer um barulho muito estranho. Trava, não liga, tento acessar o HD, uso até um Live CD do Ubuntu (tenho minhas habilidades escondidas). Nada. Vamos na assistência. Nada. O HD fritou, aparentemente. Ela perdeu 4 capítulos da tradução que está fazendo. Agora preciso ajudá-la. Lá se vão minhas noites sem trabalhar. Alguns fins de semana.
Existe inferno astral? Duvido. Mas que 2011 está uma merda, ah, isso está.
Mas chego em São Paulo dia 21 de maio, fico até dia 30. Vou para Montevidéu, fico num hotel super legal na Ciudad Vieja, faço minhas compras literárias e venho para Buenos Aires dia 31. Se nada de ruim acontecer antes ou durante.
A Mulher em PDF
Esqueci de avisar ontem que A Mulher Sem Palavras já está a venda na Saraiva e na Gato Sabido como e-book. Não é no formato Epub, o melhor, mas em PDF. A um preço muito honesto.
Os links são esses: Saraiva (
http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/3369952/a-mulher-sem-palavras/?ID=BE1348867DB031509182B0844
) e Gato Sabido (
http://www.gatosabido.com.br/ebook-download/149470/a_mulher_sem_palavras.html
)
O boom antes do boom
Em 1966, o escritor, crítico e ensaísta chileno Luis Harss escreveu um livro, primeiro em inglês, chamado Los Nuestros (Into the Mainstream) onde publicava entrevistas com escritores que formariam a base do chamado Boom Latino-Americano.
Cortázar, García Márquez, Juan Rulfo, Carlos Fuentes, Vargas Llosa e até João Guimarães Rosa. Bom, depois de anos esgotado, a revista Ñ começou a publicá-lo em 9 fascículos. São sensacionais. Já saiu Cortázar e García Márquez, no próximo sábado sairá Rulfo.
Não seria legal algo assim no Brasil? Talvez seja apenas impressionismo meu, mas acho que pela primeira vez a literatura brasileira tem a chance de ganhar um espaço maior no cenário mundial. Pode ser através do crescimento do país, da diminuição relativa da pobreza e coisas assim.
Tanto pode ser uma viagem minha, afinal estou de fora, vendo as coisas um pouco de longe. Claro que falta interesse entre uma parte dos editores e também uma parte da crítica e do jornalismo.
Contagem para comparação (essa semana fui tonto e esqueci de comprar o suplemento cultural do La Nación): revista Ñ e Radar Libros
total de resenhas: 11
livros argentinos: 6 (+ 2 de portugueses)
livros de autores iniciantes: 0
Literatura Argentina e Edição
A partir de amanhã a vida fica ainda mais corrida do que já é hoje. Começam as aulas na UBA (Universidade de Buenos Aires) e eu me “inscrevi” em duas matérias. O inscrevi está entre aspas, porque na verdade vou ser aluno ouvinte pois não tenho muita vontade de ficar fazendo provas e só quero estudar as matérias que me interessam.
Por exemplo, no curso de Letras, não vou nem passar perto de Gramática, Sintaxe e Linguística. Só quero fazer Literatura mesmo. Já o curso de Edição é mais atrativo e de repente, se gosto, até posso tentar fazer completo. Por enquanto, sou um “oyente”.
As matérias então são: Literatura Argentina e Introdução à Atividade EleitoralEditorial. Depois das primeiras aulas, dou minha opinião sobre isso.
Moça em chapéu de palha

Menalton Braff
Menalton Braff sempre me surpreende. Depois de ter lido há pouco tempo o excelente A Muralha de Adriano, com sua narrativa mais tradicional e linear, ele nos desconcerta (no bom sentido) com essa Moça.
Eu me interessei pelo título, mas não consegui entender a conexão entre o chapéu de palha e a pintura antes de me embrenhar pela leitura. No livro, Menalton conta a história de Bruno, um jornalista aparentemente de uma cidade pequena que descobre falcatruas de um grande empresário.
O problema é que esse sujeito é um grande amigo do dono do jornal que o impede de publicar suas descobertas (que nunca são reveladas no correr da trama). A partir do choque com o editor do jornal, o livro vai se desenvolvendo a partir da memória fragmentada e muitas vezes repetitivas do jornalista.
Como acabou publicando a matéria de todas as formas (mesmo não ficando claro onde e como), ele precisa se esconder pois gente poderosa o procura e passa os dias num sítio com sua namorada – a pintora que usa chapéus de palha – enquanto escreve um romance (sugestão da namorada) sobre todo o caso de corrupção. Mas o livro que Bruno escreve vai se afastando da narrativa jornalística e ganha toques de ficção. O que causa estranheza em sua namorada.
Aos poucos o livro vai ganhando um toque metalinguístico já que a história que Bruno conta vai se transformando no livro que Menalton está escrevendo (ou vice-versa), com os toques impressionistas que se espalham por todo o texto e fazem a conexão com o título. Eu que havia me encantado com o primeiro livro que li do Braff, o Que Enchente me Carrega?, agora tenho outro na lista dos melhores.
Para mim, Menalton é um dos melhores escritores brasileiros da atualidade. E ele não para, já lançou mais um que felizmente deverá chegar às minhas mão em abril.
