Aqui, jogos e bebida
Antes de qualquer coisa, um aviso: os óculos foram substituídos e a vida continua em foco por aqui. Apesar de caros, o seguro de saúde deu um desconto de 50% o que aliviou bastante o cartão de crédito.
O que não aliviou foi o calor, essa semana o clima de Buenos Aires me deixou preocupado, na quarta (ou foi na quinta?) chegou a 38º. Uma coisa horrorosa, como podem imaginar. Isso nos levou a pensar na compra de um ar-condicionado. Só há um problema, nossa relação não muito amigável com o dono do apartamento. Porque instalar um ar, mesmo um split, significa quebrar parede. Ou seja, custo do ar (ao redor de 2.000 pesos) + custo da instalação (ao redor dos 500 pesos) + custo da desinstalação (acho que menor do que a anterior) + custo de restaurar parede, etc, parece não valer a pena.
Isso porque nosso contrato aqui termina em setembro de 2010 e temos 99% de certeza que não vamos continuar aqui. O apartamento é legal, o prédio é bastante OK, preço razoável e tudo mais, só que morar em Caballito não faz muito sentido, principalmente para Ela que trabalha no centro. Eu não gosto muito do bairro que tem muito jeito de família nova-rica. Brinco que é a maior concentração de carrinhos de bebê por habitante da cidade. Um horror! As mães preguiçosas argentinas estão criando uma enorme geração de crianças gordas já que elas nunca caminham, só andam sentadas nos carrinhos.
Assim que, provavelmente compraremos um ventilador de teto e um portátil – mas Turbo – para aguentar o verão saariano que está prometendo (em algumas partes da província de Córdoba já não chove há um bom tempo e um lago simplesmente desapareceu por completo).
Por outro lado, a única coisa boa do verão, a mudança de horário, dessa vez não acontecerá. O governo federal e os provinciais não entraram em acordo, portanto nada de mudança. Lembrem-se então que estou escrevendo essas linhas uma hora no passado (menos os que estiverem lendo da Bahia para cima). Ao contrário da maior parte do Brasil, aqui a diferença entre inverno e verão em relação à duração do dia já é bastante visível. Com o horário de verão era fácil ter sol até 21h. Uma maravilha!
Outra frustração foi lembrar/descobrir que Finados não é feriado aqui (lembrar porque com certeza eu estava aqui no ano passado, mas devo ter esquecido). O que não mudaria muito para mim pois com a quantidade de trabalho que tenho até fevereiro, feriado é lenda urbana para mim.
Sim, até fevereiro. Recebi mais um pedido essa semana. Um livro sobre gerenciamento e futebol, tradução do espanhol para a Larousse do Brasil, para onde foi uma amiga que trabalhava na Ediouro. Parece divertido, mas ainda nem vi o livro que deve chegar por esses dias via Sedex.
Entre os amigos famosos, só tenho uns poucos que apareceram na TV, a maioria escritores dando entrevistas. Agora posso incluir um cantor famoso que aparece em programas de auditório: é o Túlio Bragança (eu falei que com esse nome de nobre brasileiro ele ia longe) que apareceu, com suas versões de pagode em inglês no programa do Luciano Huck. Até pagaram uma viagem BsAs-Rio com estadia e tudo.
Esse é Túlio “Live from Caldeirão do Huck”:
A semana foi lenta, poucas saídas, a maioria do tempo traduzindo e revisando (essa semana vai ser um pouco – insisto, um pouco – mais tranquila e talvez consiga ir a um show), mas ontem fomos a um bar chamado Aca Bar (onde tirei a foto que ilustra o post).
Aca Bar é um jogo de palavras já que pode ser lido como Acá Bar (aqui bar) ou, tudo junto, Acabar. E essa última palavra tem, na gíria, o sentido de gozar. Portanto, se vierem para cá evitem dizer: “Ah, hoje quero me acabar”, por favor.
O legal do lugar, além da comida e dos drinques (acho que tomei gin tônica pela primeira vez na minha vida – não lembro de ter tomado antes), são os jogos de mesa. Eles têm uma grande prateleira com muitos jogos, por isso o melhor é ir com amigos.
Há desde Banco Imobiliário (Monopoly por aqui) e War (TAG) até xadrez, damas e dominó. O mais divertido realmente é um que se chama yenga ou torre de babel. Eu não lembro de ter visto algo parecido no Brasil. São simples pedaços de madeira em formato retangular, monta-se uma torre com eles (3 madeiras por “piso”), aí é preciso ir tirando as madeiras de baixo e colocando em cima. Claro que uma hora vai tudo pro espaço.
Também inicio, hoje o Barba’s Book Club, com mini-resenhas dos livros que li no último mês. Cliquem no link que vai ficar na parte superior da tela.
Drums & parrilla
Air drumming é uma das atividades mais divertidas que existem. Aqui, ao lado do computador, eu sempre mantenho um par de baquetas (uma Pro-Mark 5A, as únicas que prestam) e, entre uma página e outra digitada, toco um pouco de “bateria no ar”. E não é que alguém teve a magnífica ideia de fazer um filme sobre essa arte?
Vejam minha mesa de trabalho e reparem nas baquetas junto ao iPod, companheiros inseparáveis.
Chama-se Adventures of Power e já está em cartaz nos EUA (será que chega no Brasil ou Argentina? Duvido). A história de um cara que ama tocar bateria, mas é filho de um mineiro que nunca teve dinheiro para comprar o instrumento. O rapaz tem um talento natural para tocar air-drumming e vai atrás do seu sonho, participando de um competição. Parece ser muito engraçado. E o melhor é que gravaram um vídeo com o ator “tocando” Tom Sawyer ao lado de Neil Peart (e todos sabem como eu idolatro esse baterista).
Tive um pequeno acidente do sábado para o domingo: dormi em cima dos meus óculos que acabaram assim:
Por sorte meus óculos escuros também são de grau (senão nunca poderia usá-los) e a situação não é tão desesperadora. Mas é estranho usar óculos escuros em casa ou à noite. O lado bom é que marquei uma consulta com o oculista para quarta-feira, vamos ver como estão esses lindos olhos!
Na semana passada recebi a visita de Guilherme Darisbo, guitarrista e revisor de Porto Alegre. Ele está pensando em mudar para cá e já começamos a armar uma banda virtual. Também nos encontramos com o Túlio que abriu um espaço em sua agenda de celebridade para um jantar italiano no Spiagge di Napoli. Se você não sabe que o Túlio é uma celebridade, é porque não assistiu às suas pagodeversions. Isso mesmo, pagodes in English. O que começou com uma brincadeira, ganhou as manchetes do jornais. Ele até viajou para o Rio de Janeiro, para gravar uma participação no Caldeirão do Huck.
Por sorte, ele mora aqui e foi possível comer tranquilo na cantina, sem fãs e autógrafos, mas acho que essa paz não vai durar muito. Com certeza, ele vai acabar ficando famoso por aqui também!
No domingo, viajamos por meia hora e chegamos à Feira de Mataderos, um dos últimos bairros da cidade (mais uns quarteirões e já saímos da Capital Federal). O nome do bairro é meio autoexplicativo. Ali estavam a maioria dos matadouros do gado que vinha do interior para ser consumido na capital. E isso não mudou muito. Ali fica o Mercado de Liniers. Todos os dias pela manhã, alguns jornais da TV transmitem direto de lá, mostrando o número de cabeças que entraram no mercado. É uma média de 10.000 e esse número influencia nos preços.
Aos domingos, a frente do mercado se transforma em uma feira voltada para a divulgação de produtos do interior argentino. É bem legal, a comida é boa e tem algumas atrações musicais que podem ser interessantes. Almoçamos no Vieja Recova (a foto que abre o post foi feita lá e mostra o que [não] sobrou de nossa porção de vacío, linguiça e morcilla).
Encontramos até uma lhama (é a da esquerda, na foto abaixo), o que nos fez lembrar da primeira viagem que fizemos juntos entre dezembro de 94 e janeiro de 95. Chegamos a uma cidade no Chile – que não me lembro o nome – entramos no hotel, abrimos a janela do quarto e tinha uma lhama bem no meio da praça.
Ela e a lhama ou vice-versa:
De resto, como era de se esperar, o resto da semana foi tomado por muitas traduções e pouca diversão. Menos na segunda passada, quando consegui – depois de muitas tentativas – ir ao Clube de Tradutores Literários de Buenos Aires. É bom encontrar outros sofredores e chorar um pouco as pitangas (ótima expressão, um pouco esquecida). Talvez, no ano que vem, eu faça uma palestra sobre a tradução espanhol-português.
A semana passada completei 1 ano de Buenos Aires. Sem festinhas, mas escrevi um texto em espanhol com apenas três erros e elogios de minha professora. Fiquei muito orgulhoso. Sou assim, fico feliz com minhas pequenas conquistas.
As vacas gordas são as mais chatas

Com a volta das “vacas gordas” como diz a minha amiga Clarisse, a vida tem ficado chata. É que o tempo das vacas gordas significa passar os dias trabalhando, saindo só para comer na hora do almoço e fazer minhas caminhadas no meio da tarde. Para disfarçar um pouco o “aburrimiento” criei uma estratégia para essas caminhadas. Marquei algumas praças e áreas verdes perto da minha casa e estou fazendo as caminhadas para esses lugares, assim não vou andar sempre pelo mesmo lugar e conheço as praças daqui.
Tive azar porque justo a primeira praça, que se chama General Aramburu, está passando por reformas. Em vez de verde de grama, máquinas e um monte de barro. Dia desses vou até a Plaza Irlanda que fica perto da imobiliária que nos alugou esse apartamento.
Uma das novidades é que descobri um lugar que faz tortas muito gostosas a bons preços. Tortas, no geral, vegetarianas (mas algumas são calóricas por causa do queijo) a 15 pesos. Pelo menos uma vez por semana, o almoço é uma torta dessas.
Como os dias da semana são de trabalho (e isso vai se estender até o fim do ano, sem perdão), o jeito é aproveitar os fins de semana. E no sábado, lá fomos nós para Puerto Madero. O quê, passear sob a lua, comer em um restaurante chique? Que nada, fomos é para o cassino. Roletas, Black Jack e Pôquer. Uma delícia perder dinheiro. Agora fiquei viciado, em outubro do ano que vem, juro que volto para jogar mais uns 200 pesos. Uma vez por ano é um vício espantoso.
Eles têm uma versão muito estranha do pôquer. Demorou algumas rodadas, mas eu peguei a manha e perdi menos do que se tivesse jogado na roleta, por exemplo.
Já no domingo foi Día de las Madres aqui, assim aproveitei que íamos para Boedo e levei a câmera. Um dia comum se transformou em mais um “dia fotográfico”. A foto que ilustra esse post foi tirada na esquina de San Juan e Boedo (que pode ser considerado o centro do bairro). É um bar com show de tango diários. Com jantar fica um pouco caro, mas estou com vontade de ir lá alguma noite.
O bom é que, mesmo trabalhando como um assalariado, ainda estou conseguindo encontrar tempo para ler. Toda noite (sim, minha jornada de trabalho está se esticando até a noite), ao terminar de traduzir, sirvo um copo de uísque com gelo e leio umas 30 ou 40 páginas do livro do momento. E pensei em começar um Clube de Leitura do Barba, logo mais vocês entenderão o que isso quer dizer.
Corpos estranhos
Desde a última atualização no blog, eu fiz várias coisas interessantes. Viajei, toquei bateria, encontrei com vários e valiosos amigos, deixei de encontrar com outros também valiosos por pura falta de tempo (minha e deles), visitei diversas editoras e percebi que – aparentemente – a escassez de trabalho no mundo editorial terminou.
Passei 13 dias corridíssimos em São Paulo, uma viagem marcada pelo aniversário de 70 anos da minha mãe. Junto com minha irmã, compramos uma máquina de lavar nova para ela, além de pagar um jantar no famoso Terraço Itália. Pode ser brega, mas minha mãe adorou.
Além de encontrar o Beto e o Rodrigo, tocar em um estúdio no domingo à noite, ainda encontrei uma fita VHS de um show que fizemos no Madame Satã em 1991/92 (é demais achar que vou lembrar a data correta). Disseram que vão digitalizar, aí eu jogo no Youtube.
Acabei de jantar um delicioso Chaw Mien com Tofu. É incrível como gosto de comidas orientais, será que tem algum lugar aqui em Buenos Aires que ensina a culinária chinesa? Acho difícil, teria de pagar para um desses cozinheiros de restaurantes “chinos” para me ensinar. O medo é desistir de comer depois de conhecer a cozinha desses lugares.
Minha viagem foi marcada por um acontecimento doloroso também. Fiquei sabendo que uma antiga namorada (bota antiga nisso, acho que ficamos juntos de 86 a 90) teve meningite fulminante. Começou a passar mal um dia, foi para o hospital à noite e faleceu ao meio-dia do dia seguinte. Há anos não conversávamos, praticamente cortando toda relação. Mas fiquei chocado mesmo assim. Seguindo todos os clichês (e a vida está cheio deles), começamos a pensar em como a vida é fugaz. E aí vamos para outro clichê que é o de “aproveitar a vida”.
Eu voltei para o Brasil com vários livros para traduzir, garantindo uma boa parte da minha vida em 2010. Mas já tenho também uma listinha de compras – coisas que são urgentes como um computador novo e coisas que são para me fazer feliz como uma bateria e uma boa lente para minha câmera.
Conheci alguns editores novos na viagem. Visitei a Leya, talvez a mais nova editora brasileira, conheci pessoalmente a Fabiana da Arx, além do Rogério e da Débora na Planeta. Deixei com todos eles uma amostra da Anna, meu novo romance. É preciso tentar, não?
Entre escritores, tomei um longo e interessante café com o Nelson de Oliveira e uma longa e interessante cerveja com o Marcelino Freire. Queria encontrar mais gente, só que não foi possível. Na minha próxima visita ao Brasil, espero não precisar fazer essa via sacra em editoras e ter mais tempo para os amigos. Foi mesmo uma via sacra porque o ano para traduções foi tão fraquinho que eu precisava fortalecer alguns laços e reconstruir outros (quando a Mariana saiu da Planeta fiquei sem nenhum contato forte lá, por exemplo). Valeu a pena, mas sacrifiquei alguns amigos.
E trouxe a primavera para Buenos Aires, finalmente. Não se preocupem, eu continuo adorando o frio, mas uma mudança de estação é sempre necessário na vida (e no clima). É isso que os brasileiros não entendem muito bem, é preciso viver as quatro estações para valorizar o sol e o calor. No domingo fomos a um bodegón muito legal chamado La Maroma, é de lá a foto que abre este post.
Ah, e para quem não entendeu o título, é o livro que acabei de traduzir para a Record, um thriller médico. Bom para minha conta corrente e meu projeto de viajar pelo menos quatro vezes no ano que vem (estou falando de quatro viagens, não de um pulinho na praia, mas o Brasil também conta).
Daqui a 6 meses
Essa foi a resposta que recebi no Ministério do Interior. Mas não foi tão ruim, segundo eles daqui a seis meses eu vou retirar meu DNI. Ou seja, não fui deportado, preso ou pior. Só passei a manhã da quarta-feira inteira de pé, em várias filas.
E quando digo várias, não estou inventando. Cheguei às 07:30 mais ou menos e tinha uma fila que virava duas esquinas. Acabamos organizando um grupo do Mercosul: um brasileiro, dois paraguaios e um uruguaio. Às 8 horas as portas do ministério foram abertas e começamos a entrar. Aí me deram um número verde. Era para passar por uma triagem. Para ver se eu tinha trazido mesmo todos os documentos, as fotocópias, etc. Estava tudo certo, tinha levado até mais do que precisava.
Fui enviado para o subsolo e não havia nenhum instrumento de tortura, a não ser as próprias filas. O meu número na primeira fila interna era 115. Agora tinha passado para 164. Mas ninguém respeitava a numeração, nem os funcionários do ministério que apenas diziam “¿Quién sigue?” ao invés de chamar pelo número.
Com certeza, vários espertinhos foram mais rápidos nesse “quem é o próximo” e passaram na frente, até eu perceber o que estava acontecendo e junto com outros pedir para um segurança organizar a fila. Nessa segunda “fase”, uma garota passou meus dados para o computador e a única pergunta que fez foi se meus pais eram brasileiros.
Paguei uma taxa de 15 pesos e fui para a quarta e última fila. O que me parecia ser a mais tranquila, foi a que mais demorou. Chamavam pelo sobrenome e o meu nunca aparecia. Descobri depois que uma das atendentes pegava as fichas em bloco. Claro que ela pegou um punhado de fichas e a minha era a última. E é claro que era a atendente mais lerda dos 6 ou 7 que estavam ali.
Sem contar que o velhinho do Consulado argentino em São Paulo tirou todas minhas impressões digitais aqui, mas eles precisavam tirar tudo de novo. E lá fui eu tocar piano!
- Ah, e agora sai um DNI provisório, nem que seja um número?
- Não, não tem documento provisório. Daqui a 6 meses você volta para retirar o DNI.
- Seis meses?
- Isso, seis meses.
Não, não tem uma data específica. Inclusive no papel que ela me entregou está escrito à mão um nada específico “seis meses”. Ou seja, em tese eu devo ir no dia 9 de março de 2010 até a mesma 25 de Mayo para retirar minha cadernetinha.
Nem esquentei em perguntar se ficaria mais seis meses “ilegal”, sei que ela iria responder com boa ou má educação que era problema meu. Como vou para o Brasil agora no final de setembro, provavelmente vão me dar mais 3 meses de legalidade argentina. E se tudo der certo, vamos para Assunção no começo de 2010, aí tenho visto legal até março. O mais engraçado é que pedem para levar duas fotos, mas só usaram uma, a outra é para levar no momento em que retirar o documento. Ou seja, parece que vão preencher tudo na hora.
- O senhor trouxe a foto que precisava?
- Sim, está aqui.
- O senhor trouxe a cola?
- Ah, precisava?
- Sim, faça o favor de comprar na papelaria ali fora.
- Certo, aqui está.
- O senhor pode me emprestar sua caneta para preencher o DNI?
- …
Estou tirando um sarro, mas no Brasil foi muito pior (pelo menos nos anos 90): o documento a Stella demorou 2 anos e 4 meses para ficar pronto. Sendo que cada vez que ela ligava para a PF em Brasília, eles diziam que tinha sido enviado pelo correio. E demorou um ano para chegar!!! A vantagem é que ela tinha um documento provisório que permitiu abrir conta, tirar CPF e carteira de trabalho. Coisas que não preciso, então tudo bem.
Quando saí do ministério, lá pelas 13h30, fui direto encontrar-me com Ela no Tulasi, o restaurante de Indian Food que está virando aos poucos um dos meus preferidos. E à noite fomos no Mis Raíces, um dos poucos restaurantes judeus (de verdade) que existem por aqui. Os outros que já comi eram muito misturados, tanto com comida árabe como com comidas portenhas. Não, não dá para ir num restaurante judeu e encontrar no menu bife de chorizo e não se sentir enganado. Tudo bem que é carne kosher, mas isso não faz a menor diferença no gosto.
Também foi nossa primeira experiência com um restaurante “indoor”, que é a nova mania no mundo. A comida é ótima, eu até gostei do patê de fígado (que Ela detestou), mas sem dúvida o melhor é o Gefilte fish, peixe ao forno. Sensacional. Também adorei o esic fleish, que é uma carne com agridoce. O único problema é que era tanta comida, mas tanta (ainda mais porque tinha almoçado no Telasi) que me senti até mal. Acho que foi a primeira vez na vida que cheguei ao ponto de não aguentar colocar nem mais uma garfada na boca. Daqueles momentos em que é preciso abrir um botão da calça e caminhar um pouco.
E se fosse pela Juanita, a dona do restaurante, a gente ainda estaria comendo. A mulher ultra simpática é a dona e cozinheira. Na verdade, o restaurante é na casa dela. Saí de lá com a certeza de que precisava comer pratos judaicos com mais frequência, mas que precisava organizar melhor minhas saídas, para não ir a dois restaurantes de comidas pesadas no mesmo dia.
Na terça, dia anterior, tinha ido ao meio-dia até o Bárbaro, um café muito legal, em pleno micro-centro. Na terça e na quinta, caminhei bastante pela região, preparando uma nota sobre hotéis na Avenida de Mayo (que vou publicar daqui a pouco) e fiquei fascinado pelo Castelar Hotel, que fica na esquina com a 9 de Julio. O spa que existe no subsolo é muito legal. Gostei das fotos que tirei.
Na quinta, comecei meu curso de Redacción y Corrección. Gostei da professora e a turma é legal. Tem mais duas brasileiras que estão estudando na UBA e resolveram melhorar o espanhol escrito. Um grupo com três brasileiros deve ser meio raro por aqui. Mas demonstra um pouco a quantidade de gente que vem estudar aqui. Boas universidades, cidade barata e estudos gratuitos é uma mistura e tanto.
Como era a semana da burocracia, tive mais um contato com ela quando fui tentar fazer uma nota sobre o Museu Xul Solar. Você descobre os pequenos e grandes burocratas pelo olhar, pela expressão. Toda vez que você chega num lugar e precisa falar com um burocrata, ele sempre responde com esse olhar “putz, o cara vem me atrapalhar” e isso mesmo se a função dele é responder a suas perguntas.
Quando cheguei no museu, a recepcionista estava com essa cara. Pensei que ia dar merda e deu. Obviamente a mulher respondeu que eu precisava pedir autorização para a diretora, etc, etc. Isso porque fui honesto e contei tudo o que queria fazer antes. Podia não ter feito nada disso. Podia até ter tirado fotos sem flash escondidas. Vou ligar para a sra. diretora para pedir a santa autorização, etc e tal. Mas aproveitei o tempo livre e fui até a Clásica y Moderna, uma livraria/café que há tempos queria conhecer.
É um lugar legal, sem grandes atrativos estéticos, mas um centro de arte e cultura portenho. Com shows, exposições, boa comida e, claro, livros. Na tarde de ontem, tirei meu caderno rivadavia verde e escrevi mais dois capítulos de “Anatomía de un solo de batería” minha nova novela. Já vou pelo capítulo 16 (dos planejados 40).
Hoje foi dia de escrever as notas pro blog, ler jornal e tomar o café da tarde no Coleccionista, o único café notável que fica no meu bairro (e onde escrevi o 16º capítulo da novela). Estou ouvindo o novo CD do brasileiro Andre Matos que comprei em arquivos digitais da Azul Music, para quem gosta de bom heavy metal, eu recomendo. Ainda mais pelo custo de 9 reais para MP3s com boa qualidade.
Uahhhhh, que sono, acho que é isso. Agora vou colocar o post de hotéis no ar. Ah, a foto de abertura é minha, no Clásica y Moderna.
DNI
Esta semana vai ser importante para mim: é meu turno para dar entrada no pedido de DNI de estrangeiro. DNI, para quem não sabe, é o Documento Nacional de Identificação (em castellhano: Documento Nacional de Identificación).
A burocra aqui não é nada fácil. Eu já tinha organizado todos meus documentos no consulado argentino em São Paulo, assim que tudo foi um pouco mais fácil. Isso não significa que foi mais rápido. Entrei com o pedido pela primeira vez em novembro do ano passado. Faltou uma coisa: a tradução da certidão de nascimento. Não adiantou argumentar que o pessoal do consulado disse explicitamente que nenhum documento precisava ser traduzido.
Lá fui eu pro Colégio de Traductores de Buenos Aires, traduzi o documento e voltei alguns dias depois. Segundo o rapaz estava tudo certo e marcou uma data para que eu voltasse, com todos os documentos, xerox de tudo, certificado de residência (tirado em qualquer delegacia de polícia), 2 fotos e 20 pesos.
“Que bom”, pensei, “bem fácil”. Mas quando vi a data, fiquei boquiaberto. Dia 9 de setembro de 2009. Na hora não vi a parte cabalistíca de um 09/09/09. Só fiquei louco de raiva ao ver que era quase um ano mais tarde! Lembrem-se eu estava em novembro de 2008.
Perguntei ao rapaz: E nesse meio tempo eu fico ilegal aqui? E ele me respondeu com um levantar de ombros que dizia: E que posso fazer? ou O que eu tenho a ver com isso? Explico que não estou ilegal, já que o consulado me deu um visto “permanente” temporário até outubro de 2009. Mas não posso abrir conta ou alugar algo em meu nome ou ter nota fiscal, nem ter um emprego. Não que quisesse fazer algo disso.
Bom, esse quase um ano passou e agora vou lá, quarta-feira. Só falta tirar as fotos, tarefa que cumprirei amanhã de manhã. As fotos para DNI são bem estranhas. Nada de 3×4, são maiores, acho que 4×4 e o rosto precisa estar virado uns 45º para o lado direito. Wish me luck, all of you.
Depois de pegar o “jeito” do Robin Cook, a tradução está indo muito bem e tranquila. Estou trabalhando um pouco mais do que o normal, (faço algumas páginas durante o fim de semana e tento esticar ao máximo as manhãs) para poder trabalhar pouco ou nada durante a viagem para São Paulo. Como disse, o livro é bem tranquilo.
N quarta fui para San Telmo tirar fotos da estátua da Mafalda que está em Chile e Defensa, em frente ao prédio em que morou Quino (que hoje vive em Milão). Acabei almoçando num restaurante bem mais ou menos na rua Estados Unidos. A comida não era ruim, mas o atendimento bem lento. E eu tinha aula de Gramática, assim que foi meio estressante. Ontem, por outro lado, voltei ao bairro e almoçamos, junto com dois amigos brasileiros da Stella, no velho e bom Don Ernesto. A comida está muito boa 90% das vezes e o atendimento é sempre excelente.
Depois, passeio por Defensa (eu até gosto mais de ir de sábado, já que os domingos são terríveis), sorvete no Freddo e café no La Poesía (cada vez mais meu café preferido). À noite, casa do cunhado para ver o jogo. Eu gosto muito da seleção argentina, mas falta um cara para armar jogadas ali. Gostem ou não, queiram ou não, o Riquelme faz muita falta nesse time.
Minha novela avança firme e forte: na sexta, depois da aula de inglês (contei que voltei a estudar inglês num curso especial sobre gramática?) sentei no Café de los Angelitos e escrevi mais dois capítulos da saga baterística.
Voltei à Eterna Cadência na terça-feira para ver uma palestra sobre livros de ficção científica. Não sou fã do gênero, mas gosto de alguns paradigmas (como o das viagens no tempo) que são bem comuns nesses livros. O cara que fez a “charla” é bem legal. Entende dessas questões porque é físico. E eu fui caminhando os cinco qiuilômetros que me separam da livraria.
Na quarta, jantamos com Martín Kohan na “parrilla” preferida dele. Parece que seu novo livro será publicado em março, mas não me lembro (ou acho que ele não falou) por qual editora. É uma história autobiográfica, mas romanceada, sobre uns problemas que teve com inquilinos em um apartamento que estava alugado (mas que é onde ele mora hoje).
De resto, passei a semana começando a organizar minha viagem para o Brasil que, se tudo der certo, acontecerá entre 25 de setembro e 8 de outubro, e incluirá o aniversário da minha mãe, uma viagem de 2 dias para o Rio (rever amigos e conversar com alguns editores), uma visita a minha tia-avó que está doente em Amparo (interior de São Paulo), além de encontrar todos os amigos e visitar editores paulistas. Uma correria, mas acho que vai dar certo.
Fora que quero renovar a carteira de motorista nesse meio tempo. Como os preços aqui estão baratos e há lugares bem legais na província de Buenos Aires, queremos tirar uns fins de semana, alugar um carro e partir por essas estradas perigosas da Argentina – Workin’ Them Angels. Com outro casal, ainda ficaria mais barato. Estou com vontade de voltar a dirigir, faz muito tempo que pego a estrada (dirigindo, pelo menos). Acho que uns dois anos.
Também meio que já organizei coisas para fazer na volta. É que um de meus cursos termina e estou querendo aproveitar o tempo. Duas coisas que vou fazer quando voltar do Brasil: finalmente começar minhas aulas de harmônica e fazer o curso de culinária indiana, duas coisas que venho adiando.
Sem falar que no ano que vem será minha dedicação ao trekking, mas aí já é outra história. Agora chega que a semana vai ser pesada. Enfrentar a burocracia, ver dois lançamentos de livros, um jantar num restaurante verdadeiramente judeu, inauguração de exposição fotográfica e ainda vou enfrentar uma peña, festa folclórica típica do interior argentino.
A volta ao trabalho
Eu tava tão acostumado à boa vida de desempregado que, ao retomar minhas atividades de tradutor, até estranhei. Por isso, (e por preguiça mesmo) não atualizei o blog. O livro que estou traduzindo é um best-seller americano para a Record. O bom dos best-sellers americanos é que não são chatos, sempre está acontecendo algo.
A parte que não gosto desses livros (além da obviedade das histórias, no geral) é que americano adora descrever tudo que está acontecendo o tempo todo. Descreve a voz de todas as telefonistas que a personagem fala pelo telefone. É uma coisa exagerada que cansa um pouco. Acho que é por isso que os romances americanos chegam a 100 mil palavras tranquilamente. Eu não consigo escrever assim.
Os dias quentes desse maldito “veranico” fora de época também não ajudam. Volto a me sentir mole e sem muita vontade de fazer nada. A não ser ir ficar bundando no Parque Rivadavia, claro. Eu e mais da metade de Caballito. Mas estou avançando bem na tradução, fazendo até mais do que as metas diárias. E vejam, estou escrevendo aqui (só depois de um puxão de orelha de uma de minhas – poucas – leitoras).
Essa semana eu comi num restaurante natural ali perto do Congresso chamado Sattva. Também fui até a Faculdade de Direito me informar sobre o mestrado em Tradução que eles têm. E descobri que é caríssimo, apesar de ser uma universidade pública. Nesse mesmo dia, acho que foi quarta, fui até um evento no Centro Cultural da Espanha e vi, ao vivo e em cores pela primeira vez, o Ricardo Piglia – um dos escritores argentinos que quero ler mais.
Ontem, finalmente fomos assistir a “El Secreto de Sus Ojos”. Realmente, o filme vale tudo que estão falando. Além do já conhecido Ricardo Darín, os outros atores são excelentes, principalmente Soledad Villamil que, para mim, é uma das atrizes mais bonitas daqui. Outro imperdível é o humorista Guillermo Francella, uma espécie de Ronald Golias daqui, que pela primeira vez faz um papel sério (bom, com um certo humor) e não se sai nada mal.
A história é muito boa, o roteiro não é nada óbvio e a produção impecável. O cinema argentino como há tempos não via. Se estrear no Brasil, não percam. Depois, como estávamos com a sogra, decidimos ir para um restaurante daqui do bairro mesmo.
Hoje fui até San Telmo e tentei participar e tirar uma foto da inauguração da estátua da Mafalda em frente ao prédio em que vivia o cartunista Quino quando criou a personagem. Digo tentei porque havia tanta gente (e não só na inauguração, mas em todo o bairro) que desisti. Volto durante a semana para a foto.
Eu não sei se a situação econômica está um pouco melhor ou se foi o fim da gripe A, só sei que San Telmo estava lotada de turistas, como há muito tempo eu não via.
OK, isso foi apenas um post rápido, para falar que estou vivo, continuo escrevendo e que prometo retomar a periodicidade. Agora também preparando minha viagem para São Paulo em outubro.
MInha nova obsessão: Mario Levrero
Descobri esse escritor uruguaio por indicação do Sergio Chejfec em 2007. Comprei alguns livros no Brasil e mais alguns aqui.
Agora escrevi uma resenha sobre a Trilogía Involuntaria no Cronópios. O link para quem quiser ler: http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id_usuario=71#texto
Compras no outlet
Foi uma semana muito interessante que começou com um lançamento literário sui generis (para mim, pelo menos). Fui na Ateneo da Santa Fé para o lançamento do livro de Ricardo Montaner. O mais engraçado é que eu cheguei lá e descobri que havia toda uma multidão, carros de polícia, imprensa. Foi só aí que comecei a me perguntar: quem é esse cara, um escritor, que consegue juntar multidões para um livro de autoajuda? Foi quando descobri que, na verdade, o Montaner é um cantor hiper-famoso no mundo hispânico. E eu nunca tinha ouvido falar no sujeito. Bom, menos mal que eu não o conhecia um cara que é um tipo de Julio Iglesias local.
E como eu cheguei ali? Fui me encontrar com o Carlo Carrenho, publisher da Thomas Nelson Brasil que veio a Buenos Aires para esse lançamento e para tirar uma semana de férias. Depois de um tempo lutando para conseguir entrar (a quantidade de seguranças era impressionante), consegui passar a muralha de ternos negros com a ajuda do vice-presidente da TN gringa, o Larry.
Na terça, fomos comer uma milanesa no El Federal, com a presença Dela que não está trabalhando à tarde, só de manhã. Depois fui mostrar como San Telmo é um bairro mais legal que os outros. Com o Carlo comprovei como os preços estão baixos para um brasileiro por aqui. Ele ficou louco e queria comprar tudo que via, impressionante! Piadas à parte, os preços estão realmente incríveis.
Na semana também consegui uma nova editora para traduções: a Record. Depois de vários contatos, fechei uma tradução de um best-seller com a editora Isabella. Estou esperando o livro chegar para começar. E isso tranquiliza bastante as contas por alguns meses. Por isso, estou gastando tanto em cursos. Um de gramática espanhola, outro de redação e correção de textos (também em espanhol, claro), além de ter decidido voltado a estudar inglês. Eu gosto muito dessas três línguas e sempre que puder, vou estudá-las.
Fiz uma proposta de um novo blog sobre Buenos Aires, mas dessa vez só sobre cultura: cinema, literatura, teatro, artes plásticas e música. Um cara da editora com quem falei achou a ideia ótima, agora estou esperando a resposta do chefão. Seria legal fazer uma matéria semanal sobre o que acontece de interessante na cultura portenha (e acontece muita coisa).
A vida foi boa até terça, mas na quarta comecei a sentir dor de garganta e o nariz congestionado. Uma gripe leve, mas com a paranoia da gripe A, todo cuidado é pouco. Fiquei mais em casa, evitei ao máximo o contato com outros e descansei. Essa é a única parte boa de ficar gripado.
Pelas calles de Montevideo
Esse fim de semana pegamos um pequeno avião da Pluna e desembarcamos em Montevidéu. Fazia tempo que queria conhecer essa cidade. Talvez por ser uma Buenos Aires menorzinha (o que é verdade) e por admirar muito a literatura uruguaia. Tenho na minha cabeceira (na verdade, no chão ao lado da cama, já que não tenho criado-mudo) o livro de contos de Onetti e sempre estou dando uma espiada nesse autor fantástico. Também fiquei viciado em Mario Levrero – que se juntou aos já companheiros Benedetti, Quiroga e Galeano – e agora tenho Armonía Sommers e o famosíssimo, mas que eu li pouco, Felisberto Hernández.
O hotel não era grande coisa, mas barato. E não foi escolha minha, mas d’Ela, assim que nem vou comentar. Uma coisa é inegável, está muito bem localizado. Bem no começo da Ciudad Vieja, numa rua onde estão localizados a maioria dos bares e restaurantes da zona. Da janela tínhamos a visão do Teatro Solís, que é lindíssimo. Menor que o Colón, mas aberto, funcionando e restaurado – tudo que o Colón não está.
Jantamos num restaurante chique que ficava bem embaixo do hotel e já tivemos a primeira surpresa: os preços no Uruguai são bem mais caros que na Argentina. Gastamos o equivalente a uns 300 pesos, fato que só acontece aqui se formos em algum restaurante de luxo em Puerto Madero e comermos as coisas mais caras. Quando saímos para jantar e não nos preocupamos com o preço, gastamos no máximo uns 150 ou 160 pesos.
Até esse momento, achávamos que era o restaurante. Vai que tínhamos escolhido o restaurante mais caro da cidade sem percebermos? No dia, seguinte, sábado, depois de uma noite mais ou menos (não sei se o problema era o hotel ou é um “defeito” geral de Montevidéu, mas a falta de aquecimento a gás é um problema – o frio é igual ao desse lado do rio e o aquecimento elétrico não dá conta), fomos caminhar pela Ciudad Vieja. Na noite anterior, dois uruguaios nos disseram que o lugar é ótimo durante o dia, mas complicado à noite. E parece ser mesmo: é uma mistura de San Telmo com La Boca. Há muitos prédios mal-conservados e outros que claramente viraram cortiços. No meio desses, outros edifícios lindos, conservados e vários palácios/mansões lindíssimos(as). A maioria dos museus está ali. Tirei muitas fotos e fomos para o porto. Para um brasileiro os preços não são ruins (para ver como a Argentina está barata), por isso a quantidade de português que ouvi não era normal. Tampouco havia qualquer paranoia sobre a gripe A.
Descobri que o mate que se toma no Uruguai é mais próximo ao chimarrão gaúcho do que ao mate portenho. E parece que os montevideanos nascem com o braço meio torcido para segurar a garrafa térmica (termo por aqui): impressionante como todo mundo anda na rua tomando mate. Não podíamos deixar de comer no Mercado del Puerto. Que de mercado não tem mais nada, é só um amontoado de restaurantes. Como estava meio ruim pela refeição pesada da noite anterior (nota mental pela enésima vez: não comer carne vermelha e ir dormir), optei por um prato que mistura três tipos de peixes: abadejo, salmón e peixe-espada. Ela preferiu os mexilhões a provençal. Comemos no balcão mesmo, no meio de uma super-muvuca. Mas foi bastante divertido. E a comida é espetacular.
Depois do almoço foi a vez de conhecer uma das praias da cidade. Isso mesmo, Montevidéu tem boas praias e são de água doce porque ainda estamos vários quilômetros do Oceano Atlântico – Punta del Este é o lugar onde começa o mar. Pegamos um táxi até a sede do Mercosul, num antigo hotel de frente para o rio. Digo que ser um burocrata do Mercosur tem pelo menos uma vantagem. A uns 20 metros deste hotel-sede, está a praia Ramírez, pequena e não tão bonita. Ah, esqueci de dizer que a sede do Mercosul pode ser visitada, mas só de segunda a sexta.
Continuamos caminhando e chegamos até Punta Carretas, o lugar mais ao sul da cidade. O melhor teria sido alugar uma bicicleta que custa 15 reais por dia no próprio hotel. Mas não estávamos com as roupas adequadas, nem o tempo ajudava. Mas caminhar é sempre bom. Ali em Punta Carretas existe um parque, parece um grande istmo em cujo ponto extremo está uma das coisas que eu mais adoro na vida: faróis. Não me pergunte qual minha fascinação com faróis. Acho que tem a ver com isolamento e vida tranquila. Só sei que quando vejo um farol tenho ganas de subir. E foi o que fiz. 15 pesos uruguaios para dar 3 giros na escadinha em caracol e chegar ao topo, uma bela vista. Percebi que muita gente vem para Punta Carretas ver o pôr-do-sol, que é realmente especial.
No caminho até Punta, há vários clube de pescadores. Mas a Rambla, que é como chamam a enorme avenida que beira o rio, tem pouquíssimos comércios. São mais apartamentos, com diversos graus de luxo. Toda essa região me lembrou muito a parte central de Florianópolis. Deve ser muito bom no verão.
Quando voltamos de táxi, antes de entrar no hotel resolvi perguntar se a livraria que estava ali ao lado abria no domingo. Uma pergunta tola porque quase nada abre de domingo no Uruguai. Nem restaurantes e cafés! Por isso, apesar do cansaço, fomos comprar livros. Além dos dois que citei acima (Armonía Sommers e Felisberto Hernández), comprei um autor contemporâneo indicado pelo vendedor – adoro fazer isso, entrar numa livraria e pedir ao vendedor indicações dos melhores escritores atuais – chamado Hugo Burel que publicou o livro El Corredor Nocturno.
À noite fomos a um bar com música ao vivo, mas era uma banda de cover meia-boca, que só serviu como desculpa para enchermos a cara de vinho. Antes, tínhamos ido a uma das principais redes de cafés da cidade, chamada La Pasiva, comer um “chivito” que é um corte de carne típico do Uruguai. E é uma delícia, que me perdoem os vegetarianos.
No domingo fomos à feira de Tristán Narvaja, que é um caos. Milhares de pessoas, quatro fileiras de bancas no meio da rua vendendo de livros a galinhas vivas, passando por panos e peças de computadores. Não gostei, não achei grande coisa. Mas fiquei com vontade de voltar àquela rua em outro dia. Isso porque ela é cheia de pequenas lojas (lojas mesmo, não barracas no meio da rua) com antiguidades e livros usados. Nem me atrevi a tentar visitar alguma. Fica para o verão. Bem em frente ao começo da feira está a Biblioteca Nacional e a Universidade, dois prédios muito bonitos e com sérios problemas de conservação. Mas peguei um adesivo de Pepe 2010, o candidato a presidente pela Frente Ampla – a agrupação de esquerda que governa o país hoje.
Pegamos um ônibus e voltamos para a Rambla. É incrível como os uruguaios são gentis e ajudam os estrangeiros. O ônibus custa 1,50 real, caríssimo para os padrões portenhos (0,60 de real), mas barato para quem vive em São Paulo. Almoçamos na praia de Pocitos, num restaurante que parecia a sede da Federação de Aposentados de Montevidéu pela quantidade de idosos se divertindo, almoçando e bebendo.
Como não há muito a se fazer na Rambla quando o frio não permite que aproveitemos a praia, ficamos sentados em frente ao Yacht Club, vendo os barquinhos que não possuímos. Realmente, a onda “slow life” de Montevidéu é muito forte. Domingo é dia de descansar, caminhar pela praia e levar o cachorro para passear. Poucos carros, pouco movimento (o frio também atrapalha) e muito tempo livre. Não sei se me acostumaria com uma vida assim. Quando voltamos, já era hora de preparar as coisas para voltar. No único restaurante aberto, comemos uma pizza bem fraquinha e fomos para o aeroporto. Uma pena que as duas viagens foram à noite, queria ver Montevidéu do alto. Uma coisa é certa: quero voltar no verão e ver como são as praias com calor. Em um certo sentido, Montevidéu seria uma cidade bastante perfeita para esse meu casamento tão cheio de contradições.
É fria no inverno, quente e com praias no verão, rica literariamente e histórica. Quem sabe um dia não trocarei Buenos Aires por Montevidéu. Será que precisam de tradutor no Mercosul?